NEUSA E. SILVA

por Sherif Awad
Especialmente para www.MeetingVenus.com

NEUSA E. SILVA


Tenho 38 anos e sou Angolana.. Agora jornalista freelancer Euronews, Criador da Marca, diretor e apresentador do Radar Econômico, Blogger e Palestrante.

Sou natural de Luanda capital de Angola, sou a décima filha de 11 irmãos. Nasci em 1982 numa altura de muita instabilidade no meu país, em curso havia uma guerra civil…e consequentemente os meus pais foram um de muitos que se sentiram obrigados a emigrar e perder todos os seus bens…mas a dada altura regressaram ao país. E foi bem na altura em que nasci, uma infância difícil especialmente porque meu pai foi preso político e minha teve de sustentar sozinhos cincos filhos, vivemos temporariamente em uma cubata simples a beira da praia, e depois em casa de familiares, até que finalmente meu pai regressou para nós.

Meu pai deu-nos uma educação rígida, acompanhava o nosso desenvolvimento escolar ao pé da letra, aos fins-de-semana sentava-se connosco para ensinar a tabuada e a gramática…dizia que nosso futuro só depende de nos formarmos, claro que na altura eu não percebia muito bem porquê…

Perdi meu pai quando completava os meus 18 anos, na altura e fruto da minha rebeldia estava a viver em casa de um irmão. Daí para frente tomei o leme da minha… Entre trabalhar de dia e estudar de noite tive dois filhos…

Já trabalhei como secretária, recepcionista, técnica de recursos humanos… mas o meu verdadeiro sonho sempre foi fazer locução, um sonho que depois evoluiu para uma paixão pelo jornalismo...

Passei uma vida a tentar, desde os meus 15 anos até aos 32, quando finalmente o Decano do meu curso na Universidade de comunicação deu-me a oportunidade de iniciar-me no mundo radiofônico.

Mas antes tive várias portas fechadas, a última tentativa que fiz para trabalhar em rádio fui avaliada por um dos nomes mais importantes do mundo radiofónico uma referência na altura e ele disse-me categoricamente que eu nunca seria nem locutora nem jornalista, que estava perdida e que devia fazer um teste para descobrir a minha vocação. Disse mais que eu era uma pessoa triste e que devia esquecer este sonho e cair na realidade… Depois disso passaram-se dois anos e nem me passava pela cabeça voltar a acordar um sonho já moribundo…

Mas foi a minha irmã mais velha a Nicolina, quem insistiu comigo para voltar ao meu sonho de ser jornalista e assim o fiz…Depois de quatro anos sinto muito orgulho do meu percurso… Muito duro, muitos altos e baixos, já realizei o principal jornal econômico da Rádio Estatal, dei o rosto pelo primeiro Plano Nacional de Desenvolvimento de Angola, e também do primeiro programa de Literacia Financeira do Banco Central local. Depois disso criei a minha marca, realizei, produzi e apresentei juntamente com uma equipa pequena e autónoma, o primeiro e único programa de cariz económico emitido pela Televisão Pública do meu país em horário nobre. Seguiu-se então o que eu considero ser o auge para minha carreira e de qualquer jornalista, trabalhar para uma TV internacional. Durante este percurso, fui sempre dedicando tempo ao meu blogue e uma única causa social: A luta contra a gravidez precoce…

A minha principal referência é a Jornalista Clara de Sousa, tanto em tv como em rádio. Penso que quando temos um objectivo profissional para alcançar, devemos estudar, ler bastante, tentar aprender várias abordagens para depois conseguir determinar qual será a abordagem que melhor se adapta a nós. Mas eu costumo dizer que quando se tem um sonho é importante investir na formação académica e profissional, desta forma quando surgir a oportunidade estaremos prontos para abraçá-la.


O meu foco nunca foi alcançar o estrelato, o meu foco é prestar um serviço público cada vez maior. Costumo dizer que não me considero nunca uma figura pública, o meu trabalho é que é público. Quando um dia daqui a muitos vir o meu trabalho reconhecido mundialmente isso com certeza vai ser muito importante para mim

Sim com certeza, muitos! No início da minha afirmação profissional senti muito a discriminação e o preconceito ditarem as regras e determinarem quem pode fazer o quê e quando…Uma mulher por mais competente que seja tem sempre que provar mais que os homens… e arrancar o seu lugar ao sol, porque em muitos países Africanos as mulheres ainda são vistas como tendo que ser submissas, e este princípio é transferido por muitos para os cargos de gestão. Vejo muitas mulheres competentes largarem as suas carreiras por motivos como o assédio moral, sexual, e mesmo preconceito. Infelizmente…Mas hoje isso para mim está ultrapassado, trabalho em uma empresa que valoriza imenso a igualdade de género e até apoia o crescimento profissional das mulheres,

Ainda há muito para se fazer, mas houve uma evolução muito grande desde as últimas eleições gerais há dois anos atrás… Evoluímos no quesito liberdade de imprensa e acesso a informação por parte de órgãos estrangeiros…creio que estamos no bom caminho.

Eu encaro todas as propostas como mais uma oportunidade de aprender sobre algo diferente. Nunca analiso a questão orçamental, sempre pondero o quanto esta nova proposta pode agregar valor ao meu crescimento profissional… Às vezes trabalho até de borla (risos)

Actualmente sou jornalista freelancer correspondente Euronews para Angola, estou a trabalhar na criação de um programa de rádio online sobre vida económica e diplomática da Região da SADC e não só…. Tento garantir que o presente corra bem, para que no futuro possa colher aquilo que estou a semear….