Gabrielle Lopes

por Sherif Awad

Gabrielle Lopes

-Sou natural de Brasília, filha de um mineiro e uma cearense. Meus pais chegaram em Brasília em busca de oportunidade de trabalho e de uma vida melhor na nova capital. Considero ambos vencedores e tenho sorte de convivermos, mesmo eu morando em outra cidade e contar com o apoio nas minhas escolhas.  Comecei a me interessar pelas artes na escola fundamental. As aulas extras que fazia como dança e piano, fortificaram o meu desejo pela arte de atuar. Tinha o costume de ouvir música, assistir filme e através destes improvisava cenas. Também, brincava com minhas irmãs e meus amigos de fazer apresentações para as nossas famílias com as cenas que a nossa imaginação criava. E na escola, incentivada pelas aulas de artes que sempre gostei, sentia que o palco era o meu lugar. Posso dizer que foi um processo natural, da minha alma, por não ter nenhum artista na família, apenas liberdade de fazer as minhas escolhas. Assim, aos 13 (treze) anos fazia testes na minha cidade para publicidades ou teatro e com frequência pegava o papel. Lembro que meus amigos da escola topavam tudo que eu inventada. Cheguei a ganhar concursos e gincanas nas escolas e nas colônias de férias com as minhas performances. Em casa ou na escola brincava de ser outra pessoa e isso foi cada vez ficando mais forte até que com 14 (quatorze) anos ganhei meu primeiro papel no teatro, remunerado, na cidade. A partir desse momento, não parei mais. Até que decidi fazer intercâmbio cultural para expandir minhas possibilidades, conseguir viver longe da minha família e quando fosse para a universidade pudesse desbravar outros lugares que naquele momento não imaginava quais seriam. 

-Durante minha morada nos EUA que durou 6 (seis) anos, no segundo grau entrei para o grupo da escola e ganhei um prêmio de melhor atriz na modalidade comédia, isso também enalteceu meu desejo de seguir esse caminho. Então, realizei meu grande sonho de ingressar na faculdade de artes cênicas que iniciei em Michigan. Tive que interromper, após graduar com honra no curso técnico, por questões financeiras. Assim, retornei ao Brasil, participei de audições, conquistando meu primeiro papel em um filme em Brasília, no momento da retomada do cinema no País. Em seguida, fiz uma novela em São Paulo, mudei pra essa cidade e fui estudar cinema. Aos poucos, com muito trabalho e persistência ingressei no mercado de trabalho. Segui estudando em paralelo, no intuito de burilar meu ofício trabalhando no cinema, teatro e televisão. Até o momento, participei de diversas obras das quais tenho muito orgulho e tem sido meu alicerce para construir uma carreira que me sinto apreciada e respeitada apesar de saber que todo dia acordo para conquistar o mundo. 
-Meus professores de teatro e todos os atores: Néia Paz, Betty Davis, Fernanda Montenegro, Marília Pera, Renata Sorrah, Beatriz Segall, Adriana Nunes, Zezé Motta, Luciana Martuchelli, Gloria Pires, Ana Lúcia Torres, Patricia Pillar, Joana Fomm, Claudia Raia, Xuxa, Lucinha Lins, Glenn Close, Meryl Streep, Julianne Moore, Oprah, Uma Thurman, Liv Ullmann, Ingrid Bergman, Susan Sarandon, Mia Farrow, Olivia Newton John, Gena Rowlands, Gena Davis, Winona Ryder, Whoopi Goldberg, Vivian Leigh, Philip seymour hoffman, Robert De Niro, Dustin Hoffman, Robin Williams, Michael Caine, Jeremy Irons, Marlon Brando, Robert Downey Jr., Michael Keaton, Eddie Murphy, Jack Nicholson, Bill Murray, John Travolta, Charlie Chaplin, Chico Anysio, Jô Soares, Tony Ramos, Similião Aurélio, Welder Rodrigues, Jeff Moreira, Ney Latorraca, Diogo Vilela, Reginaldo Faria, Antônio Fagundes, Stepan Nercessian, Didi, Dedé, Mussum, Zacarias, os grupos de teatro Néia e Nando e A Culpa é da Mãe de Brasília, todos os palhaços que assisti no teatro ou circo, os músicos: Vinícius de Morais, 
Maria Creuza, Tom Jobim, Cartola, Rita Lee, Marisa Monte, Cássia Eller, Liza Minnelli, Barbra Streisand, Cher, U2, Milton Nascimento, Chico Buarque, Legião Urbana, Madonna, Michael Jackson, Titãs, Ney Matogrosso, Cazuza e na dança: meu professor de dança chamado Chocolate, Mikhail Baryshnikov, Ana Botafogo e tantas outras fontes de inspiração que posso cometer injustiça em não mencionar aqui. 

Gabrielle Lopes

-Desde que compreendi aquilo que fazia tinha a nomenclatura de atriz, resolvi que faria dessa jornada minha profissão. Assim, através dos estudos e na prática, me tornei uma artista sem nem mesmo saber que já era uma. Levei um certo tempo para me perceber como tal, talvez porque não era algo que pensava, mas que sentia intrinsecamente. Então, quando escolhi a carreira que estudaria na faculdade, segui meu coração e todos os testes vocacionais. Como mencionei anteriormente, foi um processo natural e sigo sentindo assim até hoje. É desafiador ser artista, pois é um trabalho que permeia os sentimentos e emoções sem expor o processo pessoal que todos nós vivemos com burocracias e perecividade da própria pele. Tenho muito orgulho da minha profissão, me sinto como uma médica da alma, oxigênio na existência e como diz o brasileiro Ferreira Gullar, “a arte existe porque a vida não basta”. Essa frase do poeta traduz toda minha experiência humana desde o dia que me encontrei na arte. 

-Estou em constante movimento por viver na instabilidade da profissão e assim não consigo conceber a satisfação de jogo conquistado. Cada projeto que termina, penso no próximo. Todo espaço alcançado é um grande termômetro de reconhecimento. Talvez, por isso, o audiovisual, por atravessar fronteiras e um maior número de público seja tão gratificante, porque o trabalho vai em lugares inimagináveis e atinge corações de diversos lugares do mundo. O estrelato mundial traduz o alcance do trabalho e isso traz imensa satisfação e também possíveis oportunidades. Quem não quer ter o trabalho reconhecido e considerado no mundo todo? Um presente assim, conquistado, levaria um tempo para acreditar. 

-O maior desafio que enfrento é no sentido de ter menos atores e mais atrizes no mercado. Mais histórias com protagonismo do gênero masculino, as oportunidades para as mulheres são, ainda, mais escassas. Sinto que o mundo todo percebeu isso e essa mudança segue num crescente, mas penso que pode ser de forma mais acelerada para reparar as injustiças com o gênero feminino. No passado, antes do reconhecimento do assédio e o machismo pela sociedade, sentia mais essa questão, na atualidade não sinto tanto dessa forma. A consciência desses comportamentos trouxe a possibilidade de inibir o agressor e até denunciá-lo. Eu mesma sofri pouco com esse tipo de comportamento e de uns anos pra cá, por ter consciência, considero inaceitável. É preciso continuar empoderando as mulheres e fortificando essa reparação do gênero feminino num mundo patriarcal. 

-Sinto que o trabalho dos artistas no Brasil, ainda é precário por conta das políticas públicas que desde sempre são de muita luta e conquista, principalmente para viver da arte. Temos empregos estáveis apenas na televisão e para pouquíssimos atores. O audiovisual no país estava conquistando cada vez mais o reconhecimento internacional. Porém, o governo atual além de dificultar o crescimento, desestimula o setor, sob a alegação por falta de verba, com o fim do ministério da cultura que reduziu em uma secretaria. Sucateou a agência nacional de cinema (Ancine) e dessa forma, retrocedeu conquistas dos últimos vinte anos que seguimos remando e lutando para não sofrer ainda mais mutilações. Infelizmente, até difamar os artistas conseguiram fazendo a sociedade acreditar em ideias equivocadas sobre o trabalho e os mecanismos de realização. Isso me entristece porque a maioria dos artistas trabalham sem amparo, estrutura e nenhuma garantia. Mesmo assim, a partir da retomada, o cinema tem se dado de forma potente revelando grandes obras e talentos para o mundo todo. Também, atribuo a grande valorização do cinema estrangeiro com seus investimentos incomparáveis com a produção nacional. Espero que seja uma “febre” passageira, pois é notório o espaço que a cultura brasileira conquista no mundo com o merecido reconhecimento. Nada mais gratificante trabalhar e desenvolver a própria vocação: a arte. 

Gabrielle Lopes

-Abordo trabalhos oferecidos com muito amor, desses que transborda muita alegria. Desejo de contribuir com o meu melhor e minha voz artística desenhando junto com a obra uma criação coletiva. Sinto total plenitude quando recebo cada personagem que tenho como missão viver! 

-No momento, retomei a Universidade para Licenciatura em Teatro, dou aula de teatro na favela através de um projeto social da cia de Arte KNU, da qual sou colabora nos últimos anos. Outro projeto atual, é o lançamento de alguns filmes independentes nos quais trabalhei, denominado “Cinema Instantâneo” e a realização de um curta-metragem produzido pelo Instituto IPRC Brasil que está agendado para o segundo semestre de 2020. Também, tenho dois trabalhos inéditos, uma série prevista para 2020 do canal TNT e um longa-metragem, onde vivo meu primeiro protagonismo no cinema, chamado “O Espaço Infinito”, com previsão de lançamento no ano de 2021. Além desses projetos, planejo estrear meu primeiro solo no teatro. E para finalizar, meu projeto presente e futuro, é o de desejo de conseguirmos vencer esse momento que fomos obrigados, prudentemente parar. Unidos na solidariedade, generosidade e muito amor para superarmos as consequências dessa navegação que ainda não sabemos aonde vai dar. E assim, retomarmos nossas vidas e nossos trabalhos, transformados, com a consciência do maior bem que possuímos que é a vida e a partir daí seguir com meus sonhos, projetos e realizações.